Não é por vocês que eu choro,
vocês que perderam a vida
nesse piscar de olhos
dos acidentes de trânsito;
vocês, principalmente, que caíram
na cilada do fim antes da hora.
Não é por vocês, que de repente
se foram sem notícias do futuro
e em escombros deixaram seu passado.
Não é por vocês, que cegaram
na ilusão dos próprios poderes
e pra sempre se calaram
sem dar adeus a seus amados
e destino a seus pertences.
Não é por vocês, que romperam
os cordames da vida
pra desabar na inconformidade da morte.
Não é por vocês, que sem mais nem menos,
sem acordos, contratos, ressalvas,
trocaram o reinstante de tudo
pelo sempre do nada.
Não é por vocês, que não mais pousarão
para a próxima foto
nem sentarão à mesa da casa
para o pão nosso de cada dia.
Não é por vocês, que cedo aprenderam
a urdir números e tecer frases
com códigos e credos
e num átimo deles desfizeram-se.
Eu choro por aqueles que ficaram,
bruscamente tomados de vazio
e dor, arcados sob o peso da verdade,
amordaçados de impotência,
forçados a morrer sem morte,
no amor amortalhados.
Eu choro por eles, pais, filhos, irmãos,
esposas, maridos,
que de repente ficaram
sem o que mais lhes dava sentido.
Eu choro pela vida.
A morte, eu sei, não nos dá ouvido,
não nos salva
nem perdoa.
Alcides Buss