DESENCANTO
Você se cuide
pra não ser atropelado
que, nesta ilha de magias,
há cavalos de ferro
por todo lado, endoidecendo.
Os pastos de ontem
se fazem, agora, aterro;
das terras comunais
perdeu-se o que havia
e até o sentido
de um dia terem havido.
Por toda parte
se vê plantar e crescer
o moderno gueto:
muralhas que separam
os que fora vão
dos que dentro ficam.
Assim, eis que a ilha,
outrora humana e simples,
se transforma, célere,
em expressa planta
de guetos e aterros.
O mar à sua volta ri,
mas – claro! – não ri à toa.
Não se revolta,
apenas ri desse outro mar
de rodas e metais
em desmedidas forças
que consomem as horas
e também a alma,
lentamente a afogam
na estreiteza de uma vida
que, azucrinada sem cessar,
vai perdendo a graça.
Alcides Buss